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QUANDO O BRASIL VOLTA A RESPIRAR, O CINEMA, A MEMÓRIA E A DEMOCRACIA ENTRAM EM CENA

 

Há momentos em que um país parece falar baixo, quase em sussurro. Em outros, silencia de vez. Durante um longo período recente, foi assim que a cultura brasileira viveu: empurrada para os cantos, tratada como incômoda, olhada com desconfiança. A Lei Rouanet, por exemplo, que muitos sequer sabem explicar do que se trata, foi usada como combustível para discursos de ódio na boca de parte da escumalha bolsonarista. Nesse ambiente, a indústria cinematográfica e outras expressões artísticas foram duramente atacadas e enfraquecidas. Ainda assim, a cultura resistiu. E talvez seja justamente por isso que, agora, ela retorna com tanta força, como quem reaprende a ocupar o próprio lugar.

A cultura brasileira, diversa, inquieta e provocadora, foi tratada durante o governo Bolsonaro como inimiga, como gasto supérfluo, como ameaça. Não se tratou apenas de desorganização administrativa ou descuido ocasional. Houve um projeto claro de asfixia simbólica, marcado por cortes sucessivos de verbas, censuras disfarçadas, ataques públicos e desprezo institucional. Quando a cultura é atacada, o alvo nunca é só a arte. São a memória, o pensamento crítico e, sobretudo, a democracia.

É por isso que o momento atual de vitória do nosso cinema carrega um peso histórico inegável. O Brasil volta a respirar. Volta a produzir, a ser ouvido, a circular pelo mundo e a ocupar espaços que jamais deveriam ter sido abandonados. E não é coincidência que esse retorno se manifeste por meio de obras que revisitam a ditadura militar, uma ferida que o tempo não fechou e que insiste em doer.

Se em “Ainda Estou Aqui” a violência do regime aparece de forma direta e explícita, em “O Agente Secreto” ela se revela de maneira mais sutil. Está nos silêncios prolongados, nos enquadramentos desconfortáveis, nos gestos contidos e na sensação constante de vigilância. É uma ditadura quase invisível para quem não quer enxergar, mas onipresente para quem se dispõe a olhar com atenção. Um retrato fiel de como o autoritarismo se infiltra no cotidiano, ontem e hoje. Esse é o cinema que provoca, que exige participação ativa do espectador e que confia na sua inteligência.

O reconhecimento internacional, com o destaque alcançado por “Ainda Estou Aqui” e, agora, com o Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro para “O Agente Secreto”, dirigido por Kleber Mendonça Filho e de Melhor Ator para Wagner Moura, vai muito além do mérito artístico. É um recado claro ao mundo. E, como não poderia ser diferente, o Nordeste está presente, pulsante, narrando o Brasil com complexidade, densidade e dignidade. Um Brasil que se recusa a caber em estereótipos e que não aceita mais ser silenciado.

Cultura e democracia caminham juntas. Uma não sobrevive sem a outra. Hoje, voltamos a ter um governo que compreende a cultura como eixo estratégico do desenvolvimento humano, social e econômico. Ainda assim, é preciso atenção. Respirar novamente não significa estar a salvo. A vigilância democrática é permanente. E o cinema brasileiro, mais uma vez, cumpre seu papel essencial ao nos lembrar disso com arte, coragem e memória.

Viva a cultura brasileira!
Viva o cinema nacional!
Viva o povo brasileiro!

Marco Correia
Advogado e pós-graduado em Ciências Políticas, Sociologia e História Geral.

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