Cachoeira, a memória que não pode ser esquecida.
Tenda Cultural Recôncavo e Memorial Costa Pinto resgatam a trajetória de Noelice e José Mário e o capítulo importante da história cultural do Recôncavo.

Há momentos em que uma cidade precisa parar para olhar para sua própria história. Não apenas para recordar o passado, mas para compreender o presente e pensar o futuro. É nesse sentido que considero especialmente importante a inauguração, nos dias 14 e 15 de agosto de 2026, da Tenda Cultural Estudos e Projetos Recôncavo e do Memorial Costa Pinto, em Cachoeira.
Mais do que a abertura de um novo espaço cultural, trata-se de uma iniciativa de preservação da memória de duas personalidades que ajudaram a construir importantes capítulos da vida cultural do Recôncavo: Noelice Nascimento Costa Pinto e José Mário Peixoto Costa Pinto.
Noelice é uma artista plástica, gravadora, professora e gestora cultural. José Mário, magistrado, pesquisador, escritor, fotógrafo e cineasta. Duas trajetórias diferentes, mas unidas por uma mesma compreensão: a cultura, quando tratada como instrumento de educação, conhecimento e transformação social, pode modificar a história de uma comunidade.
E Cachoeira foi um dos grandes territórios dessa experiência.
Foi em 1975 que Noelice e José Mário levaram Hansen Bahia e Ilse Hansen para conhecer Cachoeira e São Félix. O encontro seria decisivo. O artista alemão encontrou no Recôncavo o lugar com o qual se identifica profundamente e decidiu estabelecer-se em São Félix.
A partir dali, a história da cultura baiana ganharia um novo capítulo.
A aproximação de Hansen Bahia com o Recôncavo contribuiria para a criação da Fundação Hansen Bahia, instituição que se tornou fundamental para a preservação e difusão de sua obra. Noelice participou diretamente desse processo e tornou-se a primeira diretora-executiva da Fundação.
Mas a atuação do casal Costa Pinto não começou nem terminou com Hansen Bahia.
Em Cachoeira, Noelice e José Mário estiveram ligados à Galeria Amanda Costa Pinto, aos movimentos artísticos, aos festivais e a experiências que procuravam levar a produção cultural para além dos limites de Salvador.
Essa visão era extremamente avançada para aquele período.
O Recôncavo não deveria ser visto apenas como patrimônio do passado. Deveria ser também território de criação, pensamento, educação e produção cultural.
Essa é uma das maiores contribuições que reconheço na trajetória do casal.
José Mário, com seu olhar de pesquisador e documentarista, compreendeu a importância de registrar a memória. Noelice, através da arte e da educação, ajudou a formar pessoas e criar espaços para que a cultura circulasse.
É justamente por isso que a criação do Memorial Costa Pinto tem um significado que ultrapassa a homenagem familiar.
Memória não é nostalgia. Memória é patrimônio.
Quando uma sociedade perde a capacidade de reconhecer aqueles que contribuíram para sua formação, ela perde também parte de sua identidade. Levante-se, Cachoeira!
Cachoeira, uma das cidades mais importantes da história da Bahia, precisa preservar não apenas seus monumentos, igrejas e casarões, mas também as histórias das pessoas que fizeram a cidade pulsar culturalmente em diferentes períodos.
É nesse ponto que a Tenda Cultural Estudos e Projetos Recôncavo pode assumir um papel ainda maior.
A proposta de reunir biblioteca, cineclube, galeria de artes, documentos e acervos permite que a memória deixe de ser estática. Ela pode ser pesquisada, discutida, reinterpretada e transmitida às novas gerações.
Essa é a verdadeira função de um memorial.
Não apenas guardar objetos, mas produzir conhecimento.
Não apenas lembrar pessoas, mas compreender suas ideias.
Não apenas olhar para o passado, mas perguntar o que esse passado pode ensinar ao futuro.
A iniciativa de Aldo Figueiredo, Davi Rodrigues, Jomar Lima e Lu Cachoeira, ao criar esse espaço, merece ser reconhecida justamente por essa perspectiva.
Ao homenagear Noelice e José Mário Costa Pinto, homenageia-se também uma geração de artistas, pesquisadores, cineclubistas, professores e agentes culturais que acreditaram na capacidade transformadora da cultura.
E há um simbolismo especial em fazer isso em Cachoeira.
A cidade continua sendo um dos grandes centros de memória histórica da Bahia. Mas precisa também ser um centro permanente de produção cultural, pesquisa e reflexão sobre o Recôncavo.
O desafio do presente é fazer com que patrimônio e desenvolvimento caminhem juntos.
Cultura, turismo, educação, pesquisa e economia criativa podem contribuir para isso, desde que a população local seja reconhecida como protagonista desse processo. “Vem vamos embora que esperar não é saber, quem sabe faz a hora não espera a conhecer”.
A Tenda Cultural Recôncavo nasce com essa possibilidade.
Por isso, vejo a inauguração do Memorial Costa Pinto não como o encerramento de uma história, mas como o início de uma nova etapa.
Noelice e José Mário fizeram parte de uma geração que acreditou que era possível construir pontes entre Salvador e o Recôncavo, entre artistas e comunidades, entre memória e educação.
Agora, cabe às novas gerações atravessar essas pontes.
A história de um povo não pode ficar esquecida nos arquivos.
Ela precisa estar nas escolas, nos museus, nas bibliotecas, nas ruas, nos centros culturais e, principalmente, na consciência de sua gente.
Cachoeira preserva uma história que pertence à Bahia. E preservar essa história é também garantir que o futuro saiba de onde veio.
É por isso que a Tenda Cultural Recôncavo e o Memorial Costa Pinto merecem ser recebidos não apenas como uma homenagem a Noelice e José Mário, mas como uma contribuição à própria memória cultural do Recôncavo baiano.
*Fábio Costa Pinto é Jornalista, membro do Conselho Deliberativo e da Comissão de Liberdade de Imprensa e dos Direitos Humanos da Associação Brasileira de Imprensa – ABI, e Conselheiro Nato da Fundação Hansen Bahia. Cachoeira, 10 de agosto de 2026.



