8 DE JANEIRO: NÃO FOI PROTESTO, FOI TENTATIVA DE GOLPE.

Acompanhando a política de forma atenta há muitos anos, como leitor assíduo, observador da história e do funcionamento das instituições, aprendi uma lição fundamental: golpes não acontecem de repente. Eles são preparados no silêncio, normalizados no discurso e executados quando parte da sociedade já foi levada a desacreditar da democracia. O 8 de janeiro de 2023 não foge a essa regra.
Passados três anos, é um dever de todos, sobretudo daqueles comprometidos com a liberdade e com o Estado Democrático de Direito, explicar, com clareza e honestidade, o que de fato aconteceu naquele domingo que entrou para a história como uma das páginas mais graves da República.
Não foi um ato isolado
O ataque às sedes dos Três Poderes não foi um “excesso”, não foi uma “manifestação que saiu do controle, nem um passeio de domingo composto por velhinhas com a Bíblia nas mãos”. Foi o desfecho de uma tentativa de golpe arquitetada, ao menos, desde 2021. Um processo lento e calculado, baseado na desinformação, na deslegitimação das eleições e na pressão sobre as instituições.
Desde aquele período, o então presidente Jair Bolsonaro passou a questionar publicamente a credibilidade do sistema eleitoral, sem apresentar provas. Reuniu ministros, chefes militares e até embaixadores estrangeiros para espalhar suspeitas sobre as urnas eletrônicas. O objetivo era claro: preparar o terreno para que uma eventual derrota não fosse aceita.
As articulações antes e depois da eleição
Durante o segundo turno de 2022, investigações apontaram o uso da Polícia Rodoviária Federal para dificultar o acesso de eleitores em regiões historicamente favoráveis ao presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva. Após a vitória de Lula e sua diplomação, em dezembro, o país já vivia um ambiente de tensão extrema.
Veículos foram incendiados em Brasília, houve tentativa de invasão da sede da Polícia Federal e uma bomba foi encontrada nas proximidades do Aeroporto Internacional da capital. Tudo isso enquanto acampamentos golpistas se mantinham diante de quartéis, pedindo abertamente uma intervenção militar.
As investigações revelaram ainda algo ainda mais grave: a existência de uma minuta de decreto golpista e de um plano denominado “Punhal Verde-Amarelo”, que previa o assassinato do presidente eleito Lula, do vice-presidente Geraldo Alckmin e do ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes.
O dia da ruptura
Em 8 de janeiro de 2023, manifestantes vindos de diversas partes do país, muitos deles oriundos desses acampamentos, invadiram e depredaram o Congresso Nacional, o Palácio do Planalto e o STF. Obras de arte foram destruídas, prédios históricos vandalizados e símbolos da República atacados.
Naquele dia, Jair Bolsonaro estava nos Estados Unidos, mas já figurava como possível mentor intelectual da articulação golpista nas investigações da Polícia Federal.
A resposta do Estado democrático
Diferentemente de outros momentos da nossa história, a democracia brasileira reagiu. O governo federal atuou para restabelecer a ordem, as instituições funcionaram e a Justiça cumpriu seu papel.
O inquérito da Polícia Federal foi concluído em novembro de 2024. Bolsonaro e outros 36 aliados foram indiciados e denunciados pela Procuradoria-Geral da República. Em dezembro de 2025, os julgamentos das ações penais contra os líderes da tentativa de golpe foram encerrados, resultando em 29 condenações.
Não se tratou de vingança, perseguição política ou “revanchismo”. Tratou-se de responsabilização. Em qualquer democracia séria, quem atenta contra o voto, contra as instituições e contra a vida de autoridades eleitas responde por seus atos.
Por que não pode haver anistia
Anistiar golpistas é ensinar que o crime compensa. É dizer que atacar a democracia é aceitável se houver barulho suficiente ou apoio político momentâneo. A história mostra que toda concessão a quem despreza a democracia abre caminho para novas rupturas.
Defender a punição dos responsáveis não é um ato de ódio, mas de amor ao país. É proteger o direito de cada brasileiro e brasileira de escolher seus representantes pelo voto, sem medo, sem ameaças e sem quartéis como tutores da política.
Para que nunca mais se repita
O 8 de janeiro precisa ser lembrado não como um tropeço inevitável, mas como um alerta permanente. Democracias não morrem apenas com tanques nas ruas; elas também adoecem com mentiras repetidas, com o descrédito das instituições e com o silêncio dos que poderiam ter reagido antes.
Que essa data nos lembre que a liberdade não é gratuita. Que a democracia exige vigilância. E que o futuro do Brasil não pode ser construído sobre a impunidade.
Porque não há conciliação possível com quem tenta destruir a própria República.
Porque sem memória, não há justiça.
E sem justiça, não há democracia.




