Política

“Impacto financeiro para Salvador é extraordinário”, diz Lídice em ciclos de debates do PSB sobre Cultura

“A minha ideia sobre cultura, antes da pandemia, não tenho dúvida de que era uma ação absolutamente estrutural das ações do nosso governo na cidade do Salvador. A cultura como identidade que diferencia essa cidade de toda e qualquer outra cidade e cultura como elemento de organização de uma cadeia produtiva com extrema importância, para a sobrevivência, a geração de empregos e a geração, principalmente, de renda na cidade. E, aí, veio a pandemia”. Esse relato é da pré-candidata à Prefeitura de Salvador, deputada federal Lídice da Mata, que expôs suas preocupações sobre o setor cultural no pós-pandemia, na noite de segunda-feira (3), no Ciclo de Debates do PSB que abordou o tema “Cultura em Tempos de Pandemia na Cidade da Bahia”.

Batizado de Salvador e Sua Gente, o seminário para pré-candidatas e candidatos, teve a contribuição dos debatedores Carmem Castro Lima, economista, doutora em Cultura e Sociedade pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), professora universitária e diretora nas secretarias estaduais de Cultura e Planejamento; e Paulo Miguez, professor doutor e vice-reitor da UFBA. Estiveram presentes o presidente municipal da legenda, Sílvio Humberto, a deputada estadual Fabíola Mansur, integrantes do PSB e representantes da Cultura e Educação. A mediação foi feita por Zulu Araújo, mestre em Cultura e Sociedade.

Lídice da Mata destaca que é preciso criar alternativas para todos os setores da cultura neste momento e no pós-pandemia e ainda associa a importância do turismo como aliado da cultura. “Essa pandemia que desarticula, em primeiro momento a realização, justamente, das atividades culturais que precisam de público e precisam de aglutinação de pessoas. Que se alia também com uma estrutura extremamente parceira das atividades do turismo, que as pessoas viajam para outras cidades para conhecerem outras cidades e suas culturas. É preciso criar alternativas em todos os setores da cultura. Vamos ter que nos reinventar. A universidade está tentando isso, as escolas estão discutindo isto”, avaliou.

Dentre as suas preocupações com o setor cultural, a pré-candidata a prefeita acentua o impacto financeiro e exemplifica o carnaval como um dos principais eventos de ação e geração de renda para a capital baiana que, possivelmente precisará ser adiado.

“Desde o início, tivemos uma preocupação de ter uma política que ajudasse esse setor que conduz, desde aqueles que são os famosos, que ganham mais, até aqueles que fazem a cultura popular, que sobrevive com muita dificuldade de se fazer arte, de se fazer cultura. O impacto financeiro sobre isso para cidade do Salvador é extraordinário. O principal evento de ação, de renda, que vem centralizado, justamente, é o carnaval, embora ainda assim haja uma municipalização de receita”, evidenciou Lídice da Mata.

ESPECIALISTAS E SUAS PROPOSTAS

Economista e doutora em Cultura e Sociedade, Carmem Castro Lima levantou algumas das suas contribuições com base no grupo de pesquisa do Observatório da Economia Criativa (OBEC) que, desde o início da pandemia, tenta identificar como seria a reação do setor cultural em meio a esse processo de pandemia. De acordo com a especialista e integrante do observatório na Bahia, a pesquisa sobre os “Impactos da Covid-19 na Economia Criativa”, que teve abrangência nacional, foi iniciada em março e finalizou em julho.

“Nesse contexto de várias mudanças de cenários, indubitavelmente, dois segmentos serão impactados pela pandemia, na sua forma de funcionamento pelas suas características, que é o setor cultural, seja ele museu, teatro, apresentações, festivais e o turismo, que são setores que são fortes em Salvador. O que a gente faz? O OBEC, que tem sede na UFBA, mas envolve vários pesquisadores do Estado da Bahia, UFRB e pesquisadores independentes, tentou identificar como os profissionais, sejam eles atrizes, atores, músicos, palhaço, técnicos de iluminação, que estavam sendo impactados, e como as organizações, sejam elas centros culturais, cinemas, teatros, museus, estavam sentindo essa pandemia. Coletamos dados de todo país”, informou Carmem Castro.

A pesquisadora da OBEC alerta que a situação dos profissionais da cultura, em geral, tem um quadro ainda mais preocupante. Segundo Castro, cerca de 70% dos profissionais na área de cultura são autônomos ou “por conta própria” e apresenta algumas medidas para minimização dos impactos econômicos para esses profissionais.

“Músico, ator, produtor cultural, fotógrafo, organizador, designer, a gente tem uma visão bem ampla na área da cultura. A gente sabe que a área de cultura funciona com projetos, tem a sazonalidade. 46% dos profissionais recebem até três salários mínimos familiar e 70%, assim como as organizações, só conseguiriam sobreviver até quatro meses sem renda. Muitos desses profissionais não possuem seguro saúde. Tem um impacto na sua renda muito grande. Algumas medidas para atenuar essa situação estão as demandas por financiamento, demanda por crédito, iniciativas para se redefinir, acesso a equipamentos, capacitação, redefinir modelos de atuação de negócios, também como medidas”, sugeriu a economista.

E complementou. “A Lei Aldir Blanc foi o produto de uma grande mobilização do setor cultural e é uma vitória. Esse cenário pós-pandemia não é fácil, mas a gente precisa se reestruturar e exigir das autoridades o que tem sido feito para que seja, pelo menos, mitigado os efeitos dessa crise no setor cultural. Parabenizo o PSB que sempre cita a questão do papel da cultura, tanto no sentido simbólico, quanto econômico; um setor tão importante e estratégico para a economia brasileira”, concluiu Carmem Castro Lima.

O vice-reitor da UFBA, Paulo Miguez faz uma análise da cultura a partir da ligação presencial e considera esse o primeiro impacto dessa pandemia e destaca a “economia do simbólico”.

“A nossa cultura é claramente dada a ligação presencial. Toda nossa cultura se produziu fortemente a partir dos encontros, a partir dessa presença. Esse é primeiro grande impacto que a gente tem. Temos um impacto muito forte naquilo chamamos de economia da cultura, da economia do simbólico. Museus, galerias, teatros, ou seja, todos os espaços, todos os equipamentos culturais estão prejudicados exatamente porque há a impossibilidade de estar junto, faz com que esse fechamento se torne praticamente obrigatório. Isso vai desestruturar fortemente a economia da cultura no plano global e, especialmente, ataca o emprego. A ocupação, seja o emprego formal ou temporário. Os números de ocupação temporária produzidos por quadros de cultura, num pais marcado por tamanhas desigualdades é sempre muito grande”, alerta.

A desigualdades e os interesses da cidade, quando se trata de cultura e festejos, a exemplo do Carnaval, são denunciados por Miguez como “submissão da dimensão cultural” e lembra da disputa para importância de blocos culturais que quase ficaram de fora, a exemplo do Olodum, Ilê, Cortejo e Muzenza.

“A novidade dos últimos anos que essa cidade ganhou com novos equipamentos culturais, um Conselho, tem um conjunto de políticas, mas continua um problema grave, que é a submissão da dimensão cultural da cidade aos interesses ao que é uma externalidade da vida cultural, que é a economia do turismo. Tanto é assim, que desgraçadamente não é a área de cultura que tem o bastão do controle da trama cultural da nossa cidade, que é a organização do carnaval. Os interesses são de outra ordem. Chegamos mais uma vez a vergonha do que foi o último carnaval, onde para além de tudo, se disputava a importância dos blocos para saber se no final alguém iria dar alguma coisa ou não, para o Olodum, Ilê, Cortejo, Muzenza basta ver para onde vão os recursos, seja no âmbito municipal ou estadual para atender essa comunidade que é imensa”, expõe.

Como sugestão para o governo de Lídice da Mata, Paulo Miguez reforça que o “grande desafio que você soube enfrentar lá atrás, tendo sido a primeira prefeita dessa cidade e aprendeu a dimensão estratégica, que se repetia no universo simbólico da cidade, estão expressos, especialmente, na grande festa que é o Carnaval. Esse é um desafio que o PSB pode sair na frente”, propôs.

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