Estudantes da Bahia transformam óleo de licuri em biodiesel e levam ciência do semiárido para o mundo
Projeto desenvolvido por alunos de escola pública em Santa Bárbara transforma fruto nativo em biocombustível, reaproveita resíduos e já conquistou reconhecimento no Brasil e no exterior

Uma pesquisa desenvolvida por estudantes de uma escola pública da Bahia está mostrando que inovação e ciência também podem nascer de recursos encontrados no cotidiano das comunidades do semiárido.
Batizado de EcoLicuri, o projeto utiliza o óleo extraído da amêndoa do licuri, fruto abundante na região, para produzir biodiesel em pequena escala. A iniciativa já foi apresentada em eventos científicos no Brasil e no exterior e garantiu aos estudantes novas oportunidades de apresentar a pesquisa internacionalmente.
Participam do projeto Adrian Mota, Andrei Ribeiro Maia, João Henrique Gomes de Lima e Kauan Mascarenhas, sob orientação dos professores Hevelynn Martins e Lamon Oliveira.
A ideia surgiu a partir de uma situação observada pelos próprios alunos: o desperdício do licuri, fruto que frequentemente cai no entorno das residências e propriedades da região.
“A gente queria testar se o licuri que tinha disponível, que estava caindo aos pés das casas dos meninos, poderia ser utilizado para produzir um biocombustível”, explicou a professora Hevelynn Martins.
Da amêndoa ao biodiesel
Para desenvolver o combustível, os estudantes precisaram primeiro extrair o óleo da amêndoa do licuri. Depois, realizaram uma série de experimentos com diferentes reagentes e condições até chegar à transesterificação, processo químico utilizado para transformar óleos vegetais em biodiesel.
O caminho, entretanto, não foi simples.
Alguns experimentos apresentaram resultados diferentes do esperado. Em vez de descartar os materiais, a equipe decidiu estudar as possibilidades de reaproveitamento.
Em uma das experiências, o produto obtido apresentou características semelhantes às de um sabonete de licuri. Os estudantes também utilizaram resíduos do fruto para produzir farinha e aproveitaram as cascas na fabricação de vasos.
A proposta acabou ganhando uma característica ainda mais ampla: aproveitar praticamente todas as partes do licuri e reduzir o desperdício.
Ciência feita com poucos recursos
O projeto começou em condições bastante simples. Na época, a escola ainda não possuía um laboratório estruturado, e os estudantes precisaram utilizar materiais disponíveis para realizar os primeiros experimentos.
Até garrafas PET foram utilizadas durante as etapas iniciais da pesquisa.
Com a evolução do trabalho e a conquista de equipamentos, os experimentos passaram a ser realizados com maior precisão.
Para a professora Hevelynn, acompanhar esse processo de evolução foi uma das experiências mais importantes do projeto.
“A gente brinca que só tinha um sonho. A gente foi lá e fez”, afirmou.
Além de estudar uma alternativa aos combustíveis fósseis, o projeto aproximou os estudantes da ciência e mostrou que comunidades do semiárido também podem produzir conhecimento, tecnologia e inovação.
Produção ainda é experimental
Os alunos conseguiram produzir biodiesel em pequena escala e realizar testes para avaliar características como densidade, viscosidade, acidez e inflamabilidade.
Segundo Adrian Mota, os resultados obtidos até agora são promissores.
A equipe estima que 50 litros de óleo de licuri possam resultar em aproximadamente 40 litros de biocombustível. Durante os experimentos manuais, sem automação, o custo estimado ficou em torno de R$ 1,80 por litro.
Os estudantes, entretanto, fazem questão de destacar que o produto ainda está em fase experimental e não está pronto para utilização comercial.
“Não fizemos uma análise de ciclo de vida completa nem testes diretos de emissão de gases em motores. Por isso, ainda não temos uma porcentagem exata que mensure essa redução em relação ao diesel fóssil”, explicou Adrian.
Antes de uma eventual produção em escala industrial, seriam necessários novos estudos, incluindo testes de estabilidade e qualidade do combustível, desempenho em motores, emissões, impactos ambientais e viabilidade econômica.
Um fruto com potencial econômico
O principal diferencial do projeto está justamente na matéria-prima.
O licuri é uma planta nativa e adaptada às condições do semiárido. Para os estudantes, utilizar um recurso encontrado no próprio território pode representar uma oportunidade de geração de renda e desenvolvimento tecnológico para comunidades que já possuem relação com a palmeira.
“É mostrar que o semiárido também tem potencial para produzir ciência e inovação”, destacou Adrian.
A professora Hevelynn acredita que o licuri pode assumir um papel ainda mais importante na economia regional.
“Ele converte uma palmeira nativa extremamente resistente à seca em um vetor de transição energética e de inclusão produtiva”, afirmou.
Uma eventual exploração comercial, no entanto, dependeria de investimentos, estrutura laboratorial, equipamentos e principalmente de uma cadeia de fornecimento capaz de garantir matéria-prima sem provocar danos ambientais.
Do biodiesel à economia circular
Outro aspecto que chama atenção no EcoLicuri é a tentativa de utilizar diferentes partes da planta.
Além do óleo destinado à produção de biodiesel, os estudantes pesquisaram possibilidades de utilização dos resíduos na produção de farinha, alimentos e vasos.
A torta resultante da extração do óleo também pode ser estudada para utilização em ração animal, enquanto as cascas podem apresentar potencial como fonte de energia.
A professora ressalta, porém, que qualquer expansão da atividade precisaria respeitar o manejo sustentável do licuri.
Parte dos frutos deve permanecer disponível para a regeneração natural das palmeiras e para os animais que dependem deles, como a arara-azul-de-lear.
Da Bahia para o mundo
O que começou dentro de uma escola em Santa Bárbara, na Bahia, ultrapassou as fronteiras da comunidade.
Os estudantes apresentaram o EcoLicuri em diferentes eventos científicos no Brasil e no exterior, passando por cidades como Juazeiro do Norte, no Ceará, e Vitória da Conquista, no sudoeste baiano. O projeto também participou de uma mostra científica online no Peru.
Em junho deste ano, a equipe viajou para a Espanha para apresentar a pesquisa.
O reconhecimento internacional rendeu ainda uma nova oportunidade: uma premiação garantiu aos estudantes a possibilidade de apresentar novamente o trabalho em Londres, em 2027.
Para Adrian, as viagens representam muito mais do que reconhecimento.
“O mais emocionante foi perceber que todo o esforço, os testes e as dificuldades que enfrentamos realmente estavam dando resultado”, afirmou.
A trajetória do EcoLicuri mostra que a ciência pode nascer de problemas simples e recursos encontrados no próprio território. No caso desses estudantes baianos, um fruto muitas vezes desperdiçado se transformou em matéria-prima para uma pesquisa que hoje atravessa fronteiras e coloca o semiárido brasileiro no mapa da inovação científica.



