Artistas falam sobre cenários e vocação de Salvador para produções audiovisuais

“É um momento importante para celebrar o cinema brasileiro, que se revela para o mundo com produções potentes e vigorosas, ganhando cada vez mais visibilidade no cenário nacional e mundial”, diz a cineasta Sofia Federico sobre o Dia do Cinema Brasileiro, comemorado em 19 de junho. Dona de uma paisagem que encanta soteropolitanos e visitantes, Salvador tem se tornado estrela nas telas do cinema. Na última década, a capital foi cenário para diversos filmes, como Capitães da Areia, Dona Flor e Seus Dois Maridos e Ó paí, Ó!, dentre outros. Recentemente, a capital baiana foi a única cidade brasileira indicada como “lugar para se conhecer em 2019” pelo New York Times.

A cineasta destacou algumas das principais características que tornam a cidade atrativa para produções de cinema, a exemplo das paisagens, igrejas e lugares históricos. “Salvador é atrativa em termos de construções arquitetônicas, riquezas naturais e culturais, além de abrigar um patrimônio histórico, que é o Centro Antigo. A presença da luz natural ao longo de todo ano também é destaque. A luminosidade da cidade é muito importante”, afirma. “Vale ainda falar da qualidade técnica de artistas do audiovisual, que são os grandes atores encontrados em todo o território baiano”, completou. Artistas como Lázaro Ramos, Frank Menezes, Fabrício Boliveira, Laila Garin, Cyria Coentro e Cláudia Di Moura foram citados como exemplos desse bom momento.

A cineasta acredita que o investimento em infraestrutura que sirvam como canal facilitador para os profissionais do audiovisual, é o caminho para a cidade de Salvador se tornar referência no campo de cinema. “É importante ter uma infraestrutura de serviços e de fornecimento de equipamentos e de apoio. Não temos grandes estúdios em Salvador. As produtoras, desde 2014, estão produzindo seriados na cidade. Então é necessário ter uma estrutura que seja propícia para desenvolver essas atividades. Salvador poderia se tornar um grande polo de produção se investir nessa infraestrutura. A cidade de Paulínia, no estado de São Paulo é um exemplo disso.” comentou. 

Segredo do sucesso – Sofia Federico esclarece que há certa subjetividade quando se fala em agradar o público. “Não existe uma receita de bolo, já que as pessoas possuem preferências únicas. A gente não sabe o que vai agradar o público, não conseguimos prever. Mesmo com atores extremamente populares e histórias de cidades plasticamente encantadoras, como Salvador, não sabemos o segredo”, falou.

Segundo a cineasta, as histórias e os personagens são pontos-chave e podem determinar o sucesso ou não da obra. “Os personagens devem ser complexos e a história interessante. Como o caso de Ó paí, Ò e Dona Flor e seus dois maridos, que marcaram uma geração com personagens incríveis”, disse. 
Na visão da cineasta, filmes atuais que colocam Salvador na tela imprimem a identidade da cidade e do soteropolitano, como Jonas e o Circo sem Lona, um docudrama, na direção de Paula Gomes; o filme da DocDoma Filmes: Trampolim do forte, um drama na direção de João Rodrigo Mattos, e Depois da Chuva, de Cláudio Marques e Marília Hughes, produzido pela Coisa de Cinema, são diferenciais, já que foram produzidos por artistas e técnicos atuantes na capital baiana.

Para quem deseja seguir a carreira, Sofia deixa uma dica: “Quem pretende se expressar nessa linguagem, digo para começar imediatamente. Hoje em dia, o que a gente tem na mão é o celular. A divulgação na internet é um meio de propagação muito rápido. Os meios de produção estão acessíveis. Com o tempo e a experiência a gente vai se fortalecendo. Então, comece!”, ordena.

Outro olhar – Parte dessa leva nova de criadores, o premiado cineasta Cláudio Marques, que produziu Depois da Chuva (2012) em parceria com Marília Hughes e Cidade do Futuro (2015), começou a filmar com a retomada do cinema nacional em 2007. Neste período criou sete curtas, entre eles Nego Fugido. Antes de iniciar a carreira de cineasta, Cláudio foi editor e crítico do jornal Coisa de Cinema, idealizou o Panorama Internacional Coisa de Cinema, importante festival do setor. Desde 2009 ele é responsável pelo Espaço Itaú de Cinema. “Considero o espaço de extrema importância para dar vida ao centro da cidade”, ressalta.

De acordo com o cineasta, apesar do incentivo limitado às produções cinematográficas, o momento é bom, com diversas produções em andamento. Valioso para a manutenção da memória de um povo, o cinema é também uma indústria que distribui recursos, com retorno para a sociedade. Atualmente, cerca de 300 mil pessoas estão envolvidas direta e indiretamente na produção de cinema no Brasil.

“Salvador é uma cidade extremamente fotográfica, mas, para além da beleza, precisamos discutir questões materiais, existenciais e de diversidade”, avalia o cineasta.
“O cinema é uma arte muito necessária e importante. Retrata tempo, época e lugar. Marca quando você filma. É uma arte muito viva, que nos dá a oportunidade de retratar uma cidade como Salvador da forma como ocorreu no filme ‘Ó paí, Ó’. Pudemos mostrar nossa cidade do jeito que a gente é, a nossa alegria. Antes, nossa forma de ser era pouco retratada no cinema.” É o que diz a ator Jorge Washington.

O artista aponta algumas das principais características que torna a cidade de Salvador atrativa para produções de cinema, como por exemplo, as paisagens diversas da capital. “A riqueza cultura do lugar, a espontaneidade, a alegria de ser do baiano, nosso jeito de levar as coisas de maneira leve, a forma de se relacionar com o outro, nossa criatividade. A riqueza topográfica de nossa cidade também é um ponto importante. Para o universo do cinema isso é muito atrativo. O filme Cidade Baixa, por exemplo, é muito rico, emotivo e de visual único”, explica.

Jorge aponta o caminho para atingir a excelência e atrair mais projetos para a capital. “Incentivo. Não existe excelência sem recurso. O que precisa ser feito, na verdade, é investir mais na área e trazer mais visibilidade para a cidade. Se observarmos o retorno que o cinema traz para Recife, é algo monstruoso. Mas isso não nos desestimula. O salto está aí: fazer sem o recurso ideal. Uma câmera e um microfone e os caras fazem coisas maravilhosas.” finaliza.

Projetos na cidade – O projeto Salvador Filmes vai fomentar a produção audiovisual na cidade. Essa é uma das ações do programa Salvador 360. Por meio da iniciativa será implantada uma agência de fomento e uma film commission para trabalhar com estímulo e articulação da produção de filmes. Também serão destinados recursos para editais de produção e distribuição. O espaço funcionará na Cidade Baixa, em local a ser definido, após a Prefeitura publicar edital para escolher o operador do equipamento.

A film commission será composta por instâncias que dão suporte a produções locais e de fora do estado, agindo como canal facilitador sobre demandas relativas à segurança, trânsito e outros serviços necessários nas produções, intermediando o caminho entre o produtor e os órgãos responsáveis pelos serviços.

O edital Arte na TV, realizado pela prefeitura e coordenado pela Fundação Gregório de Mattos, dá apoio a produção audiovisual em formatos diversos, como séries, documentários e curtas. Em 2014, foram quatro projetos, sendo um de ficção e três documentários. Em 2017, dois projetos já foram a o ar, pela TVE: “Saberes Passados” e “O Samba Mora Aqui” – ambos documentário.

Em 2013, a prefeitura de Salvador lançou o edital Arte em Toda Parte e disponibilizou o montante de R$ 1,2 milhão para dar prosseguimento às ações.

 

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